Meus caros leitores, não vou falar de um jogador, mas sim de um treinador. Alguém com um estilo muito próprio. Hoje decidi falar-vos de Pep Guardiola, um homem de convicções que construiu muito provavelmente a melhor equipa que o futebol Mundial já viu jogar.
Mesmo sem querer falar de 'Pep, o jogador', não se pode separar certas coisas, pelo menos no inicio.
Josep Guardiola i Sala, conhecido por "Pep", nasceu no dia 18 de Janeiro de 1971 em Santpedor, Catalunha.
Fez toda a sua formação no Barcelona onde chegou com 13 anos e aos 19 fez a sua estreia pela equipa principal num jogo frente ao Cádiz. Seguiram-se mais dez temporadas ao serviço do Barcelona onde foi o expoente máximo da qualidade. Um médio defensivo com classe e inteligência que fez parte da equipa, desculpem, grande equipa,de um senhor da história do futebol chamado Johan Cruyff. Equipa essa à qual designaram como 'Dream Team'.
Jogou ainda em clubes como Brescia, AS Roma, Al Ahli e nos mexicanos do Dorados de Sinaloa. Foi ainda 47 vezes internacional pela " La Roja".
Depois de terminar a carreira, tinha algo bem delineado na sua cabeça. Tinha uma ideia exata do que queria implementar num grupo de trabalho.
Guardiola como um discípulo de Cruyff, tinha enraizado uma ideia de jogo muito própria e porventura única.
O assumir de uma equipa técnica pela primeira vez aconteceu em 2007 quando Pep Guardiola se tornou treinador da equipa B blaugrana e se sagrou campeão da 3° divisão com o "produto" de La Masia.
No dia 5 de Junho de 2008 e com 37 anos,Pep substituiu Frank Rijkaard na equipa principal, depois de uma temporada onde uma equipa vencedora, parecia andar perdida.
Foi aí que todos nós começamos a conhecer o mister Pep Guardiola e toda a sua capacidade de mudar a história de um jogo com séculos.
Foram saindo muitas estrelas, como Ronaldinho,Deco ou Samuel Eto'o e entrando jogadores que Guardiola conhecia bem da equipa B como Busquets ou Pedro Rodríguez, jogadores que se tornaram titulares rapidamente e de forma assertiva.
A sua estreia no Barça, foi uma derrota fora de portas e no jogo seguinte não foi além de um empate caseiro, mas já se sentia algo de diferente. Algo bem distinto no futebol deste Barcelona. Com o passar do tempo, Pep Guardiola ia aperfeiçoando a sua ideia e, foi transformando uma grande equipa, numa equipa mítica e lendaria do futebol mundial. Esse Barça ficou conhecido pelo tão aclamado "Tiki-Taka". Mas o que era propriamente o tiki-taka?
Este foi o nome que deram a uma extraordinária posse de bola,sempre com grande precisão, onde a mesma passava por todos os jogadores de forma rápida. Havia uma sistemática movimentação dos jogadores que não se baseavam ao seu posicionamento natural. Quando não tinham o esférico, a pressão alta chegava mesmo a ser sufocante, o que originava a recuperação da bola quase de imediato após a perda.
É crível que nenhuma outra equipa conseguisse colocar tantos homens no meio campo como esta equipa blaugrana.
Esta nova ideia de conseguir chegar ao golo sem pressa e de forma paciente e inteligente por incrivel que pareça não agradava a muitas pessoas, e embora não o admitam, a verdade é esta e poucas pessoas têm a coragem de o dizer. Havia muitas pessoas na altura que não apreciavam este estilo. Talvez por não estarem habituados a uma ideia de jogo nada usual.
Foi então nesta altura em que uma tática meticulosamente treinada fazia sobressair jogadores como Xavi Hernandez, Andrés Iniesta e o próprio Messi e assim fazia jus à qualidade de La Masia.
A Seleção espanhola treinada por Luis Aragonés também já praticava um estilo de jogo semelhante, mas sem o distinto "dedo" de Guardiola. De qualquer forma, esta espécie de "tiki-taka" ajudou a Espanha a vencer o Euro 2008.
Lionel Messi já era um jogador 'fora de série', mas Pep, transformou o jogador argentino num 'falso 9' que até aos dias de hoje tem tido um efeito fantástico na performance do jogador. É que desde essa alteração no posicionamento de Lionel Messi, nunca mais 'La pulga' fez uma época abaixo dos 46 golos.
Messi chegou mesmo a dizer que Guardiola era mais importante para o Barcelona do que ele, devido à revolução tática que Pep conseguiu enraizar na equipa, assim como também elevou os jogadores para outro patamar futebolístico.
Depois de toda esta "revolução" que marcou o mundo futebolistico, com ela haveria de surgir os titulos e, na verdade foram muitos.
De 2008 a 2012, o Barcelona venceu tudo o que havia para vencer e mais do que uma vez. Quer internamente quer a nivel internacional. Estavam assim de mãos dadas os titulos e uma forma diferente de jogar que marcou uma era de Guardiola em Camp Nou e no futebol internacional.
Em Janeiro de 2012, FIFA atribuiu a Pep o título de melhor treinador do mundo, algo inevitável olhando a tudo o que vinha protagonizando.
No final da época esta mítica equipa ficava sem o seu principal obreiro. O técnico espanhol preferiu fazer um ano sabático nos Estados Unidos para descansar e recarregar as baterias, mas os clubes interessados nunca lhe deram esse descanso. Os interessados eram imensos, mas não era o dinheiro que o movia, mas sim o projeto de incutir algo diferente e de inovador, quer nos jogadores, quer no clube. Foi então que surgiu o Bayern de Munique. Um clube que parecia não precisar de muito mais, mas na verdade queria uma nova vida, queria sangue novo, queria um novo projeto liderado por Pep.
Outra cultura, outros jogadores, outros hábitos, uma equipa vencedora de todas as competições onde esteve inserida e um espírito vencedor enraizado. Jupp Heynckes deixava assim um legado dificil de igualar.
É preciso coragem para assumir um desafio deste nível, mas principalmente é preciso acreditar cegamente no seus ideais.
A inteligência de um treinador está na forma em como ele se adapta aos jogadores que tem e cria uma forma de jogar que vá ao encontro dos seus ideais. Em termos práticos ele altera o esquema, mas não a sua ideia principal...a posse.
Desde o 4-3-3 implementado no Barça, que com o tempo e as saídas foi passando para um 4-1-3-2, com Alexis Sanchez e Messi na frente de ataque. Na Alemanha era o 4-1-4-1 inicialmente estruturado, que com o tempo deslocou Lahm para o miolo dando ainda mais sentido à qualidade na posse de bola e no transporte da mesma. Mas os homens da frente como Muller, Arjen Robben ou Ribery, jogadores mais verticais abriam outras possibilidades às convicções de Guardiola, principalmente alternar entre o passe curto com o passe longo e assim baralhar os adversários que eram obrigados a reagir mais rapidamente.
Neste percurso no clube alemão, não conseguiu vencer a Champions League, é certo, mas Pep procurou e conseguiu tirar o melhor das características principais dos jogadores e juntá-las às suas próprias ideias, no fim descobriu-se outra capacidades nesses mesmos jogadores, principalmente mais versatilidade, o que é sempre uma mais valia individual e coletiva.
De 2013 a 2016, foram anos de evolução quer para os jogadores do Bayern, mas também para Guardiola que para além de ensinar também aprendeu e cresceu como treinador e líder.
Surgiu então a oportunidade "Premier League".
A evolução do futebol inglês permitiu outra abertura ao estilo do técnico espanhol. Aquele jogo de "pontapé para a área" foi mudando e hoje em dia está manifestamente diferente.
A Liga inglesa é, sem dúvida a Liga mais competitiva do futebol Europeu. Todos jogam para vencer e fazer jus à modalidade, ou seja, marcar golos.
O Manchester City procurava definitivamente cimentar-se entre os maiores clubes europeus sem perder de vista as sempre complicadas competições internas.
Com a vontade de Pep em inserir-se no "mundo" da Premier League e com o sheik Mansour bin Zayed Al Nahyan com a ambição de fazer do City um colosso muito para além dos petrodólares, posso dizer e passo a expressão:" juntava-se assim a fome com a vontade de comer".
A época 16/17 dava o pontapé de saída para um novo projeto na vida de ambos e Pep tinha encontrado no Etihad a sua nova casa.
Sempre a privilegiar a posse e a qualidade do passe, contar com David Silva, De Bruyne e na frente com Kun Aguero era algo crucial por serem jogadores com "mentalidade Barça",o que era ótimo.
Mas a temporada não correu como esperavam e no final da época 3° lugar foi uma realidade.
Não foi evidentemente o início que todos desejariam, mas foi, diria, o "apalpar" do terreno para o técnico espanhol. A adaptação a mais uma nova realidade, uma cultura ainda mais diferente e mais apaixonante do que a vivida em anos anteirores e, para além disso, serviu também para ver quem estava com ele e com capacidade de o acompanhar num projeto onde o objetivo é apenas fazer deste Manchester City uma equipa de referência Europeia.
Chegando finalmente a este inicio de temporada, Guardiola usou bem o mercado de verão, reforçou e renovou setores, principalmente a baliza e as laterais.
Um ponto sempre importante e imprescindível no futebol de Guardiola, foi ter um guarda-redes com capacidade de jogar bem com os pés e mais à frente. Com Ederson, Guardiola ganhou isso e muito mais. Para além das qualidades técnicas de um guarda-redes que por si só fazem do brasileiro de 24 anos um dos melhores, a forma de Ederson ler o jogo, a sua antecipação, a forma de jogar quase como líbero e a facilidade de lançar o contra-ataque com o pontapé longo,fazem dele muito provavelmente o melhor guarda-redes da atualidade.
Depois ter jogadores inspirados como Leroy Sané e Sterling e um homem golo como Gabriel Jesus, há todas as condições para atingir o sucesso.
Os números e o futebol praticado têm sido reveladores do que Guardiola é e de toda a sua capacidade. Ele é capaz de fazer uma equipa jogar futebol de nível, esteja ele onde estiver.
Neste momento o City encontra-se no primeiro lugar, com mais dois pontos do que o seu rival da cidade de Manchester, treinado por José Mourinho.
Na globalidade das competições que já teve a possibilidade de jogar, o Manchester City leva 11 partidas realizadas, onde conseguiu 10 vitórias e consentiu 1 empate. O diferencial de golos vai com 35 marcados e apenas 5 sofridos.
A forma da equipa está excelente e prova disso é o resuktado deste último fim de semana onde "esmagou" o Stoke City por 7-2.
É de fato um inicio promissor do coletivo mas também de algumas das individualidades da equipa. O que eleva as expetativas para o que esta equipa é capaz de fazer a breve trecho, quer na Premier League, como e principalmente na Champions League, competição que tem sido o seu calcanhar de Aquiles.
Para além dos titulos que vence por onde quer que passe, Josep Guardiola i Sala, deu (e continua a dar) muito mais.
Não gosta de relaxamento, porque provoca o erro e quando se acha que está tudo feito, normalmente surgem os dissabores. Consideraca-se um "ladrão" de ideias, porque está constantemente analisar e a observar o que pode utilizar para tirar os melhores dividendos em benefício da sua equipa. Criou uma nova forma de ver o futebol, trouxe mudança, novas formas de estar e pensar. Trouxe ousadia e uma filosofia completamente diferente do que estavamos habituados até então.
Todas estas ideias e inovações perdem o sentido se não se conseguir passar a mensagem para o grupo de trabalho e Pep para além de toda a sua capacidade técnica e tática, é também excepcional na forma como abrange e cativa os seus jogadores. Pelo que eu me apercebo, Guardiola explica o que o jogador deve fazer e, principalmente explica como o jogador o deve fazer, algo rarissimo.
Se depois de tudo isto que vos descrevi, este técnico de 46 anos não é o melhor, então, eu não entendo nada disto.
A Bola É De Todos

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